Nos acordes e ondas de solidariedade

31/05/2016

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O show não pode parar: mais um dia de apresentação dos músicos para o público

Projeto Sorriso de Esperança leva canções a ambulatórios de João Pessoa (PB) e completa 10 anos de ação voluntária que vai muito além da música.

Por Isabella Araújo
Texto e Fotografias

Numa manhã nublada de terça-feira com temperatura em torno de 21ºC e chuva ameaçando cair, os pacientes começam a formar as primeiras filas do dia para adentrar o hospital referência no tratamento do câncer e de doenças do sangue na Paraíba, o Napoleão Laureano. São 6h, o dia amanheceu frio para os padrões nordestinos, os portões do ambulatório se abrem e as pessoas vindas de todo o estado e de regiões vizinhas entram para buscar uma ficha de atendimento. Na sala de espera, um grupo de voluntários já está a postos para receber os pacientes com música, e lá permanece por pouco mais de uma hora, transformando a atmosfera daquela casa de saúde, ainda que momentaneamente.

Os pacientes sentam e vão entrando na sintonia das canções, de cunho ecumênico ou da música popular brasileira, enquanto aguardam serem chamados. Entre uma ou outra canção, a usuária do Sistema Único de Saúde (SUS), Ednalva Firmino, pega o celular e começa a filmar a apresentação dos músicos. “É que esse louvor me toca muito”, responde ao ser questionada sobre o porquê da gravação. “Eles são de alguma religião?”, me devolve uma pergunta. “Não, eles são de todas as religiões, católica, evangélica, espírita e até mesmo quem não tem religião também participa do trabalho voluntário”, explico à paciente. “Admiro o que eles fazem”, responde a mim.

Ednalva Firmino descobriu em 2015 ser portadora de uma doença chamada paratireoidismo, que compromete os ossos e causa fortes dores pelo corpo, mas ainda está investigando se o grau da doença indica um câncer. Há pelo menos cinco anos sentia dores na coluna, mas sempre achou que tivesse relação com o ritmo de trabalho. Em março do ano passado, quando surgiu o primeiro diagnóstico, entrou em desespero e começou uma bateria de exames. Ela estava no Laureano para mostrar o resultado de uma tomografia ao médico.

Ednalva Firmino deseja recuperar a saúde e entrar num trabalho voluntário

 

 “Quando vim aqui pela primeira vez, estava numa crise muito grande, pois a doença oscila os hormônios. Cheguei arrasada e toda inchada, era uma sexta-feira quando escutei os louvores, chorei como uma criança. Depois eu me fortaleci e busquei forças para lutar pelo meu tratamento. Toda vez que eu vejo esse grupo penso em ser uma voluntária um dia”, disse. Pergunto a idade, ela responde: “53 anos”. “Você está nova!”, digo a Ednalva, que devolve: “Estou nada, estou sofrida pela doença. Meus ossos doem muito (faz uma pausa). Mas tenho fé de um dia ficar boa”, esboça um sorriso.

Termino a conversa com Ednalva e a apresentação dos músicos continua um pouco mais. “Ah, você precisava ver como era isso aqui antes desse projeto”, lembra Antônio Barbosa Sobrinho, analista bancário, músico e um dos fundadores do Sorriso de Esperança, ao se referir sobre a espera dos pacientes no ambulatório. A cena de correria das pessoas em busca das fichas de atendimento e o clima de estresse mental que permeia a espera foram abrandados pela musicalidade e o desejo de amenizar os conflitos de quem atravessa um problema de saúde.

Barbosa Sobrinho (centro): 10 anos levando música aos ambulatórios

 

 

Sorriso de Esperança

Uma média de 20 voluntários membros da sociedade civil, de diferentes idades, profissões, condições financeiras e visões de mundo, mas com um único desejo: levar conforto aos pacientes em tratamento nos ambulatórios da cidade. É com essa visão que o Projeto Sorriso de Esperança existe há 10 anos e realiza apresentações musicais em dois ambulatórios públicos de atendimento de alta complexidade em João Pessoa (PB), o Laureano e o Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW), este último referência para casos de alta complexidade em 41 especialidades. São unidades que recebem uma demanda de pacientes prioritariamente da rede pública de todas as regiões da Paraíba e até mesmo de outros estados. Nesses espaços ambulatoriais, os voluntários se dividem de forma que todos os dias da semana ocorrem apresentações para uma média diária de 250 pacientes em cada ambulatório.


Música que promove a vida

Especificamente no atendimento ambulatorial, o perfil psicológico dos pacientes em tratamento está relacionado aos transtornos de ansiedade, pelo fato de ser um momento de descoberta da doença e de envolver uma série de expectativas sobre o novo caminho a ser trilhado e que não está nos planos de ninguém. Quando a doença é o câncer ou algo classificado como grave, o recebimento de uma informação deste tipo é comparável a uma “sentença”, mesmo que haja plenas chances de sobrevida. Imagine, então, a batalha mental que se trava entre o desejo do reestabelecimento da saúde e a rejeição da própria condição de portador de uma patologia.

Angústia pela espera do atendimento é amenizada com música

 

O psicólogo do Laureano, Gilson Rolim, lida há 30 anos com pacientes em tratamento do câncer. Ele chega cedo para ouvir a música do Sorriso de Esperança antes de começar o seu atendimento. Gilson faz um resgate da terapia musical como um mecanismo utilizado depois da Segunda Grande Guerra nos ambulatórios dos feridos nas batalhas e concorda que mesmo não sendo propriamente uma inovação, a inserção da música dentro de um ambulatório tem um caráter revolucionário: “Quem entra no hospital e vem com aquela imagem de que só vai encontrar gente doente, escuta música. E tem coisa mais difícil do que essa espera do atendimento? Então, a música nesse momento faz com que o paciente relaxe. Esse trabalho musical se torna tão terapêutico quanto a minha ação”, destaca.

No acompanhamento ambulatorial, explica Gilson Rolim, é comum o sentimento do medo, morte iminente e as incertezas sobre o prognóstico de vida: “O medo é um sentimento de descontrole sobre o que vai acontecer. Nós somos educados para viver para a saúde. Então, qualquer desajuste neste sentido nos causa um desembaraço muito grande, do ponto de vista emocional”, explica o psicólogo, que destaca esse sentimento como o mais comum no ambiente ambulatorial.

Gilson Rolim, psicólogo do Laureano e entusiasta do poder terapêutico da música

"O que veio revolucionar e complementar a nossa assistência foi esse projeto voluntário. A música tem um efeito bem mais terapêutico do que a gente pensa. Outro dia vi uma reportagem sobre pesquisa que diz que a pessoa que ouve pelo menos três músicas por dia, eleva a imunidade e tem menos chances de ficar deprimida, em relação a quem não escuta. A música chega ao cérebro e libera as endorfinas, que são substâncias anestésicas e tranquilizadoras. A mãe faz isso quando põe o seu filho no braço e começa a ninar. Então, a música é capaz de favorecer o organismo em sua totalidade. Porque não somos apenas um órgão, somos um todo. E no caso, um trabalho como esse feito num hospital como o Laureano, que carrega todo o estigma da doença (câncer), esse trabalho vem somar ao nosso. Esse é um trabalho diferenciado por atitudes humanizadoras”.

Gilson Rolim

Um “anjo” chamado Carlos

Carlos Danilo Bezerra da Silva, 32 anos, conhece de perto a realidade de quem faz tratamento de saúde. Não é ele quem enfrenta uma doença, mas na condição de motorista de uma prefeitura paraibana, todos os dias conduz os pacientes para os hospitais na capital, saindo de Guarabira (a 104 km de João Pessoa) antes mesmo do dia amanhecer: “Saio de casa às 4h30, chego aqui umas 6h15 e fico até que todos os pacientes façam o atendimento. Acompanho na radioterapia, na quimioteparia e, além disso, aguardo as consultas, que ocorrem no horário da tarde. Ou seja, tem vezes que chego a passar o dia no hospital”, relata Carlos, de forma serena.

Carlos viaja todos os dias para João Pessoa com pacientes em tratamento

 

E o que seria um fardo para qualquer pessoa, levantar de madrugada para enfrentar uma estrada e um dia de espera num hospital, Carlos encara como um trabalho nobre: “Gosto muito do que faço, sempre trabalhei na área de saúde e admiro o setor, mesmo sabendo que há questões para se melhorar”, diz. Naquele dia, o motorista tinha levado três pacientes para o atendimento. Ouvinte assíduo do Projeto Sorriso de Esperança, a música, na percepção de Carlos Danilo, serve de suporte num momento de fragilidade: “Todos os dias pela manhã escuto a música desse pessoal. Quando não é aqui no Laureano, é no HU. O fato é que muitas vezes o paciente chega na cidade e não tem o acolhimento de um familiar. Sem contar as situações de gente que tem preconceito com a doença. Então, a música cumpre um papel importante, pois sonda parcialmente a pessoa, entra no seu psicológico e no seu ser. É comum ver aqui pessoas chorando. Quer dizer que aquela música ‘tocou’. Existiu uma palavra ali que vai fazer com que a pessoa se levante”, observou.

Pequenas atitudes, grandes gestos

O Sorriso de Esperança não envolve doação de nenhum recurso financeiro, mas tão somente da presença desses músicos amadores e profissionais tocando instrumentos e cantando. O esforço maior neste trabalho voluntário é acordar cedo e se dirigir ao hospital para fazer a apresentação, mas os benefícios são divididos com os pacientes, conforme expõe Barbosa: “Mesmo quando acordo desanimado, triste ou até mesmo rouco ou febril, nunca deixei de fazer uma só apresentação desde o primeiro dia de atividade. O bom é que me sinto fortificado todas as vezes que um show termina”, ressalta o voluntário fundador.

O também integrante do Projeto Sorriso de Esperança, Joubert Jerônimo, que foi paciente em tratamento no Laureano, destaca a necessidade de levar esta ação a outros hospitais: “Esse é um projeto de humanização de hospitais por meio da música e de outras formas de arte, como a poesia. Temos a intenção de no futuro implantá-lo em algum hospital do Sertão”, observa o voluntário, que ressalta o recente interesse da Universidade Federal de Pernambuco pela implantação de uma ação semelhante no HU pernambucano e o convite feito ao Sorriso de Esperança para fazer uma apresentação naquela instituição.

O superintendente do HU na Paraíba, o professor doutor Arnaldo Medeiros, explica que a unidade recebe um fluxo mensal de 12 mil pacientes para as 41 especialidades, atendendo exclusivamente usuários do SUS. O impacto da musicalização no ambulatório é, para o superintendente, algo que merece reconhecimento: “O impacto é extremamente positivo, estimulando atitudes proativas nos usuários, bem como nos profissionais. É uma iniciativa que merece os nossos parabéns”, ressalta.

O Hospital Napoleão Laureano estima que, a cada ano, dois mil novos casos de câncer sejam detectados na Paraíba, sendo os mais comuns os de mama, em mulheres, e os de próstata, em homens. Em média, a unidade oferece tratamento para 3,3 mil pacientes, mas se forem contabilizadas as consultas, exames e cirurgias, esses números sobem para sete mil atendimentos por mês.

Aceita um chá?

A voluntária Socorro Avelino e o esposo resolveram inovar no Projeto Sorriso de Esperança, oferecendo chá aos pacientes que estão na espera do atendimento. Assim como ela, outros voluntários buscam auxiliar nas orientações gerais sobre o setor de atendimento ambulatorial, ou na escuta dos pacientes que desejam conversar.

 

Artista plástica cria logomarca Sorriso de Esperança

A brasiliense Natacha Kadhija elaborou a logomarca que simboliza o Projeto Sorriso de Esperança, ainda em 2006, quando a atividade estava iniciando. Artista plástica com exposições nos salões internacionais, inclusive com referência à modelo brasileira Gisele Bündchen, o gesto voluntário de Natacha também veio somar ao conjunto de ações realizadas pelo Sorriso de Esperança: “Eu me sinto muito bem sabendo que dei uma contribuição, até por não morar na mesma cidade que desenvolve esse projeto e não poder estar pessoalmente nos hospitais como voluntária, mas ao menos apoiando-o dentro das minhas capacidades e alcances. E claro, torço muito para que o Projeto Sorriso de Esperança possa a cada dia se desenvolver mais, atingir mais pessoas positivamente e, com certeza, a música, como linguagem universal, é capaz de realizar curas incríveis, então não poderia estar mais orgulhosa de ter dado minha contribuição a esse projeto!”, destaca.

 

Projeto está entre as 10 melhores ações socioambientais do NE

Em junho de 2015, a instituição federal Banco do Nordeste premiou as dez práticas socioambientais mais significativas lideradas por funcionários em toda a sua área de atuação, que inclui os nove estados nordestinos e o norte de Minas Gerais e Espírito Santo. O Prêmio Práticas Socioambientais considerou a importância da ação desenvolvida pelo Sorriso de Esperança, o nível de envolvimento dos colaboradores (entre os quais estão Barbosa Sobrinho, Zeneide Virgolino, Deusilene Melo, Camilla Eulália e Socorro Avelino), bem como a quantidade de pessoas beneficiadas.

 

HumanizaSUS

Em 2013, o Projeto Sorriso de Esperança concorreu com outras ações do país pelas melhores práticas de humanização no SUS e, mesmo não ficando entre os finalistas, recebeu o reconhecimento do Ministério da Saúde e passou a integrar a Rede HumanizaSUS, composta por pessoas e grupos envolvidos com a temática. Assim, o Projeto Sorriso de Esperança atua de forma sinérgica ao Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar, que prima pela melhoria da qualidade e a eficácia da atenção dispensada aos usuários dos hospitais públicos no Brasil, em ações que venham a beneficiar os pacientes e os profissionais de saúde.
 

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